Existe um momento na terapia em que a palavra começa a girar em falso. A pessoa já contou a história muitas vezes, já sabe explicá-la, já tem a análise pronta. E nada se move.
Não é resistência. É que aquilo talvez não esteja guardado em forma de frase.
O que o material oferece
Quando alguém desenha, modela ou colore, algumas coisas mudam ao mesmo tempo:
- Sai da obrigação de organizar. Falar exige sintaxe, ordem, começo e fim. A imagem aceita o contraditório sem precisar resolvê-lo.
- Coloca a coisa para fora. O que estava girando por dentro ganha uma existência no papel — e passa a poder ser olhado de fora, à distância.
- Envolve o corpo. Pressão da mão, escolha da cor, ritmo do traço. Registros que a conversa não alcança.
- Permite aproximação segura. Falar de uma mancha escura no canto da folha é menos invasivo do que falar diretamente do que ela representa. A distância é o que torna possível chegar perto.
A imagem não substitui a palavra. Ela abre caminho para uma palavra que ainda não existia.
Não é interpretação de desenho
Vale desfazer um mal-entendido comum: arteterapia não é decifrar significados ocultos. Não existe dicionário em que casa sem janela signifique uma coisa e árvore sem raiz signifique outra.
Quem diz o que a imagem quer dizer é quem a fez. O trabalho é feito de perguntas — o que apareceu primeiro, o que ficou de fora, o que incomoda nessa parte, o que aconteceria se aquilo ali fosse mudado — e não de veredictos.
Como isso entra numa sessão
Não substitui a conversa; convive com ela. Em alguns processos aparece em quase todo encontro. Em outros, uma vez a cada muitos meses, num ponto em que a fala travou.
Também não exige material sofisticado. Papel e lápis de cor resolvem a maior parte. O que importa não é o resultado — é o que acontece durante e o que se pensa depois.
Se falar tem sido difícil, existe mais de um caminho para chegar lá.
CRP 03/34013
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