Quando proponho papel e lápis, a reação é quase sempre a mesma: um recuo, um riso sem graça, e a frase — “eu não sei desenhar”.
Costumo responder que é ótimo. Quem sabe desenhar tem um problema a mais: fica preocupado com o resultado.
Onde essa vergonha nasceu
Quase todo mundo desenhava aos seis anos. Sem hesitar, sem apagar, sem perguntar se estava bom. Em algum ponto — em geral entre os oito e os doze — alguém comparou, alguém corrigiu, alguém riu. E ali a mão parou.
Não se perde a capacidade de desenhar. Perde-se a permissão.
O que reaparece diante da folha em branco, muitas vezes, não é uma limitação técnica. É a lembrança de ter sido avaliada.
O que se olha, então
Nada que tenha a ver com qualidade. O que interessa é outra coisa: o que veio primeiro, o que ficou de fora, quanto espaço da folha foi ocupado, que cor foi evitada, onde a mão apertou mais, o que a pessoa sentiu vontade de apagar.
Traço trêmulo e figura desproporcional não são defeito. Frequentemente são a parte mais interessante.
E se eu travar?
Travar também é material. Uma folha que permanece em branco por vinte minutos diz alguma coisa — e vale mais como ponto de partida do que qualquer desenho bem resolvido feito por obrigação.
Ninguém é obrigado a nada. A proposta é convite, nunca tarefa. Se não fizer sentido naquele dia, não se faz.
A pergunta nunca é se ficou bonito. É o que apareceu.
CRP 03/34013
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