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Trauma não é só o grande acontecimento

Existe uma régua injusta circulando: só valeria como trauma o que fosse espetacular. Ela faz muita gente descartar a própria dor antes de olhar para ela.


Rascunho para revisão. Texto escrito como base de estrutura e tom. Nenhum artigo deve ir ao ar assinado sem que Josefina tenha lido, reescrito e concordado com cada afirmação. Apague este bloco depois da revisão.

“Mas não me aconteceu nada demais.” Ouço essa frase quase toda semana, quase sempre dita por quem está com o sono destruído há anos.

Existe uma régua circulando por aí, e ela é injusta: só contaria como trauma o que fosse grande, súbito, noticiável. Acidente, assalto, catástrofe. Tudo o que não coubesse nessa moldura seria drama.

O que a régua deixa de fora

A clínica mostra outra coisa. Marcas profundas também se formam pelo acúmulo — pelo que se repetiu por tempo demais, muitas vezes sem nenhum episódio isolado que a pessoa consiga apontar:

  • Crescer sendo previsível para todo mundo, menos para si
  • Uma casa onde o humor de um adulto ditava o clima de todos os outros
  • Humilhação constante — na escola, no trabalho, dentro de uma relação
  • Ter sido a criança responsável, a que segurava a barra dos adultos
  • Adoecimento longo, próprio ou de alguém de quem se cuidou
  • Racismo e outras violências cotidianas, tão contínuas que passam a ser tratadas como paisagem
Nem todo trauma é uma explosão. Alguns são uma goteira que levou vinte anos.

Por que a comparação atrapalha

Comparar dores costuma parecer humildade — “tem gente passando por coisa muito pior” — mas funciona como anestesia. A pessoa se cala, adia, e chega ao consultório dez anos depois pedindo desculpa por ocupar o horário.

O que determina o impacto de uma experiência não é o tamanho dela numa escala externa. É o encontro entre o que aconteceu, a idade em que aconteceu, os recursos que existiam naquele momento e — talvez o fator mais decisivo — se havia alguém por perto para amparar.

Um evento grave com amparo pode deixar menos marca do que um evento pequeno vivido em completa solidão. É essa variável, e não a gravidade objetiva, que a clínica encontra repetidamente.

Uma pergunta melhor

Em vez de “o que me aconteceu foi grave o bastante?”, proponho outra: o que isso está me custando hoje?

Se está custando sono, relações, capacidade de descansar, presença no próprio corpo — já é motivo suficiente. Não é preciso justificar a dor com um currículo de sofrimento.


Buscar ajuda não exige um diagnóstico prévio nem uma história dramática. Exige apenas perceber que algo pesa.

Podemos conversar sobre isso.

josefina queiroz Psicóloga
CRP 03/34013

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Se você está em crise agora, não espere. O CVV atende de graça, 24 horas, pelo 188. Em emergência, procure o CAPS mais próximo, a UPA ou ligue 192 (SAMU).